
A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013) é o tipo de filme que surge apenas de tempos em tempos. E, quando surge, encaixa-se facilmente nas categorias de filmaço e de acontecimento. Magistralmente dirigido por Paolo Sorrentino - de volta à sua pátria depois de uma passagem por Holywood com Aqui É o Meu Lugar (This Must Be the Place, 2011) -, o longa-metragem investe quase 150 minutos em um olhar acurado sobre as excentricidades da sociedade romana, bem como as características que ela compartilha com outras. Para isso, elege como ponto de vista eminente o de Jep Gambardello (Toni Servillo, em sua terceira colaboração com o diretor). Recém-chegado aos 65 anos, esse jornalista e escritor de um romance só não tem mais tempo a perder com aquilo de que não gosta, como ele mesmo afirma depois de deixar mais uma de suas parceiras ocasionais. O tempo lhe ensinou que a paciência é uma virtude preciosa demais para ser desperdiçada com quaisquer uns.
Logo em seu início, Sorrentino demonstra calma para situar o espectador naquele ambiente de frivolidade e esnobismo, passeando com sua câmera por ângulos nada óbvios da Cidade Eterna e mergulhando metaforicamente nas ruas, praças e na legendária Fontana di Trevi, cenário consagrado por Federico Fellini na famosa sequência de A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960), a matriz-mor de A Grande Beleza. Então, vamos parar na festa de aniversário de Jep, lotada de convidados que, juntos, compõem uma fauna que transforma o local em um zoológico humano. Todos eles se acabam ao som de canções espanholas que desafiam quem está diante da tela a continuar parado simplesmente assitindo, e resumem a essência superficial de pessoas preocupadas com o que aparentam em detrimento de quem são de verdade.
O detalhe curioso da tal comemoração é que o menos entusiasmado com toda aquela parafernália é o próprio Jep, que demora a ser visto no local e, quando aparece, é a nítida expressão do tédio e do fastio de um tipo de ambiente no qual se encontra regularmente inserido, ainda que o largo sorriso pareça demonstrar o contrário. A Grande Beleza se revela, assim, como um filme sobre a angústia de se estar no mundo e algumas implicações nada agradáveis trazidas pelo convívio social. Depois de ser sucintamente apresentado nessa sequência, uma entre várias memoráveis, o protagonista compartilha sua deambulação por lugares e situações, seus encontros com os raros amigos verdadeiros e seu repertório sensacional de tiradas sarcásticas, que não poupam nem mesmo aqueles que, para a maioria, são considerados intocáveis. Nesses giros, está sempre vestindo ternos muito bem cortados e camisas perfeitamente alinhadas. Entre os tais poucos amigos de toda a vida, está Romano, vivido por um inspirado Carlo Verdone, figurinha fácil nas comédias italianas dos últimos anos, e Stefania, sua chefe anã, detalhe que rende ótimas piadas, mas não se trata de uma personagem presa a um estereótipo.
Jep desfruta do benefício da idade, ilustrando o que muitas pessoas que já passaram dos sessenta afirmam orgulhosamente: "Já posso falar o que realmente penso". E vai além: não perde tempo com jogos de sedução, verbais ou corporais, e se preocupa em fazer apenas o que tem vontade. Foi preciso viver um longo tempo para chegar a essa condição que, frequentemente, entra em rota de colisão e se choca diretamente com algumas convenções que regem os relacionamentos e, no fundo, deveriam ser descartadas por todos. Por essas e outras, o personagem exala um imenso carisma, dizendo na lata o que muitos gostariam sem qualquer cerimônia. Duas cenas exemplificam muito bem esse seu espírito: a entrevista bem-humorada com uma celebridade esotérica e as verdades inconvenientes que ele despeja na cabeça de uma amiga de longa data. E assim ele segue, em busca da tal beleza do título, a qual diz nunca ter encontrado e que lhe serve de justificativa quando é perguntado sobre o motivo de nunca mais ter escrito outro(s) romance(s).
Estamos diante de um filme raro, que traz à tona o melhor e o pior de Roma com grande traquejo e evoca a idade áurea da cinematografia italiana. Por mais que não tenha declarado oficialmente a influência de nenhum realizador do passado, Sorrentino estabelece um franco diálogo não apenas com o Fellini do já mencionado A Doce Vida, mas com outros exemplares de sua filmografia - há uma personagem voluptuosa que alude à matrona de Amarcord (idem, 1973). E todo o percurso de Jep é revestido de uma atmosfera onírica, detalhe tão caro ao falecido diretor: seja pelo componente de surrealidade das circunstâncias, seja pelo olhar singular do protagonista. Houve quem dissesse existirem pontos de contato entre Sorrentino e Monicelli, outro grande nome do cinema de seu tempo. Influências à parte, A Grande Beleza mantém identidade própria e coerência com a obra pregressa de seu cineasta, sendo um acerto em todos os sentidos e chegando à sua cena derradeira trazendo a certeza de que não há tempo a perder.
***COBERTURA FESTIVAL DO RIO***
Direção: Paolo Sorrentino
Elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Galatea Ranzi, Isabella Ferrari
Postado em:
Drama
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